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24/05/2026

Sou um amigo ausente, mas não estranhe

 Sou um amigo ausente, mas não estranhe

Não mando mensagens ou ligo diariamente
Não fico perguntando como você está
Não fico querendo saber o que você tem feito

Sou um amigo ausente, mas não estranhe
Não faço visitas com frequencia
Não aceito convites de festas com frequencia
Não recebo visitas com frequencia

Sou um amigo ausente, mas não estranhe
Aprendi e decidi viver na solitude
Aprendi e decidi viver quieto
Aprendi e decidi viver distante

Sou um amigo ausente, mas não estranhe
Decidi sentir saudade
Decidi mandar um olá apenas 
quando a saudade apertar
Decidi te dar espaço
e deixar você sentir saudade

Sou um amigo ausente, mas não estranhe
Me importo de verdade com você
Suas conquistas me deixam feliz
Sua existencia, me faz feliz

Sou um amigo ausente, mas não estranhe
Posso sumir, posso não ficar visivel aos seus olhos
Mas estarei com você, quando a vida apertar
Oferecendo meu ombro, ou uma palavra de conforto
Estarei com você, sempre que precisar

Sou um amigo ausente, mas não estranhe
Não me julgue
Apenas, me entenda

08/03/2026

No caminho do supermercado, um pequeno momento de glória

Entre minha casa e o supermercado, existe um grande terreno vazio.
Um terreno tomado por mato alto, cercado por arame.
Nas laterais cresce uma espécie de planta que parece pendões.
São altos e, nas pontas, carregam algo parecido com minúsculas flores.
Não sei o nome daquilo e, para falar a verdade, nunca me preocupei em pesquisar.
A única coisa que sei é que, todas as vezes que passo por ali, estendo o braço e deixo os pendões tocarem minhas mãos,assim como Maximus fazia em O Gladiador.
Parece banal.
E é banal.
Mas, naqueles poucos segundos, me sinto como Maximus chegando em casa,
depois de um longo dia,
deixando a natureza tocar suavemente suas mãos.
A diferença é que Maximus voltava de uma grande batalha.
E eu…
apenas do supermercado, com meia dúzia de cervejas numa sacola.


O urubú voa, a gata dorme, eu continuo aqui

A tela do editor insiste em ficar em branco.

Pensei em escrever alguma coisa, mas nada sai.

Às vezes, ou talvez sempre, é difícil colocar no papel aquilo que passa pela cabeça.
Pela janela, observo um urubú voando em círculos num céu levemente nublado.
Fico imaginando o que ele pensa. Será que pensa alguma coisa?
Ou também fica entediado, como eu neste final de domingo?

Dolores acordou.
Se esfregou na minha perna e foi direto para a caixa de areia fazer o que precisava.
Depois dos afazeres fisiológicos, voltou, subiu na poltrona e dormiu.
Não sei se a vida de gato é simples demais ou apenas monótona.
Talvez nunca saibamos.
Gatos são criaturas cheias de enigmas.

Queria ter a facilidade que muita gente tem de escrever exatamente o que sente.
Mas cheguei à conclusão de que, na minha cabeça, as coisas são mais claras.
Quando tento passá-las para o papel, elas se misturam.

Ouço o carro da pamonha passando na avenida ao lado.
Como sempre, ele já vendeu quase tudo.
Só faltam 400 pamonhas.
É uma boa estratégia de vendas: sempre dizer que está acabando.

Olho novamente pela janela e vejo que o urubú desistiu de voar em círculos.
Na poltrona, Dolores dorme de barriga para cima.
No player, The Cure toca Pictures of You.
E eu continuo aqui, sentado na cadeira, tentando escrever alguma coisa.

No fim das contas, talvez escrever seja exatamente isso:
ficar olhando a vida passar pela janela
até que alguma frase resolva pousar.


03/01/2026

Quando fechar portas deixou de ser perda e passou a ser coragem

Vejo uma menina que, nos últimos tempos, travou uma luta silenciosa e desgastante.
Uma batalha que consumia forças, espalhava dor e deixava a tristeza fazer morada.
O brilho foi se apagando devagar, e o sorriso fácil,  aquele que vinha com gargalhada  passou a aparecer cada vez menos.
A vida nunca foi exatamente gentil com ela. Mesmo quando tentava seguir em frente, algo sempre insistia em atrapalhar o caminho.

Mas hoje eu vejo algo diferente.
Ao tomar uma decisão importante, ela muda o rumo da própria história.
Novos desafios virão, é verdade , mas ela saberá enfrentá-los um a um.
Por competência, profissionalismo e dedicação. Coisas que sempre estiveram ali, mesmo quando ela duvidava.

Ao olhar para trás, ela deixa tudo o que lhe fez mal, como quem avisa em silêncio:
fiquem aí , agora o meu caminho é outro.
A vida é assim mesmo: cheia de pedras, buracos e desvios inesperados.
Todos os dias aprendemos se é melhor pular, contornar ou chutar cada obstáculo.
O sucesso já está no caminho dela.
Basta continuar sendo quem sempre foi  e tudo começa a mudar.

Às vezes, é preciso fechar algumas portas para que haja espaço para novas se abrirem.
2026 será o seu ano.

E dessa vez, nada vai te abalar.

*Crônica feita para minha filha


01/01/2026

Enquanto o mundo explode em fogos lá fora, eu fico aqui dentro, ouvindo Ocean Rain e fingindo que o tempo não está recomeçando

Lá fora, os fogos estouram por todos os lados.
Fico aqui, encostado na janela, observando os clarões enquanto Echo & The Bunnymen gira no player.
Ocean Rain é um disco grande, desses que combinam com silêncio, pensamento solto e uma certa melancolia bem aceita.
Descobri uma versão alternativa de The Killing Moon que eu não conhecia.
Funciona perfeitamente como trilha sonora pra beber uma cerveja sem pressa, deixando o tempo passar.

O ano novo começou.
Nada de épico: é só mais um dia. Um novo dia.
Mas, gostando ou não, tudo recomeça.
Absolutamente tudo.


Enquanto eles cantam We Are the Champions, eu bebo outra cerveja e espero que as luzes de Natal queimem

Os vizinhos estão com visitas. A noite deles parece animada demais.
Uma mulher ri igual à hiena do Rei Leão, enquanto um sujeito berra We Are the Champions no karaokê.
Freddie Mercury deve estar se revirando no túmulo, de puro pavor.
Não condeno os vizinhos. Eles têm todo o direito de fazer a virada do jeito que quiserem.
Eu é que sou ranzinza mesmo.

The Killing Moon, do Echo & The Bunnymen, toca no meu computador e eu lembro do Buenas.
Li o último livro dele, Tracks, e já saí com uma lista nova de artistas pra conhecer.
Essa é a vantagem de ler alguém que gosta de música e sabe escrever.
Tenho os três livros devidamente autografados. E isso, por algum motivo, me deixa genuinamente feliz.
Um dia, quem sabe, publico minhas coisas também.
Mas é só um quem sabe.
Um desses que a gente guarda sem muita fé, pra não estragar.

A visita da vizinha continua rindo feito hiena.
E eu abro outra cerveja.
Fico deitado, ouvindo música, olhando pela janela, torcendo pra que as luzes de Natal entrem em curto-circuito e queimem de vez.

Happy New Year.

O Mundo estoura em fogos e eu continuo tentando escrever alguma Coisa

Minha mente às vezes funciona como uma máquina defeituosa de pensamentos. Conflitos comigo mesmo, problemas banais do dia a dia, ideias que eu queria deixar registradas e talvez, quem sabe pra alguém, um dia, tropeçar nesses escritos e se interessar.
Mas a tela do editor continua ali, aberta, me encarando como quem pergunta: e aí, vai escrever essa merda ou não?

Na janela, minha gata está estirada, de barriga cheia, observando as senhorinhas conversando lá embaixo. As resoluções delas parecem as mesmas de sempre: cuidar da vida alheia enquanto as próprias seguem vazias.

As luzes de Natal insistem em refletir no vidro. Por que não desligam essa merda? Natal já passou e ninguém liga pra elas. Muito menos eu.
Sinto que a noite vai ser longa. Ainda tem os malditos fogos e essa insônia que resolveu me acompanhar nos últimos dias.
Gosto de ficar sozinho, nunca tive problema com isso. Mas em certas épocas do ano, preferia não estar.
A mente não para. Os pensamentos aparecem sem pedir licença e ficam cutucando. Não estou deprimido, só irritado por não conseguir colocar essa merda no papel.
Às vezes me pergunto como Bukowski conseguia. Com aquela vida toda torta e ainda assim botava tudo pra fora, sem pedir desculpa.

A tela segue em branco enquanto As The World Falls Down, do David Bowie, toca no player.
Ele canta algo sobre amar alguém mesmo sabendo que tudo pode ir pro ralo e, ainda assim, insistir.
Queria ter conhecido Bowie. O cara era foda. Um dia ainda escrevo como ele. Mesmo que ninguém leia.
A tela continua me olhando.

Minha gata cansou das velhas e foi dormir na cama.
As luzes não vão sumir da janela. Os fogos já começaram.
Vou pegar outra cerveja e deixar Heroes tocar.
É uma música foda. E, sinceramente, todo mundo deveria ouvir.


Nem toda aventura sobrevive ao tempo, algumas viram música

 
Living a Boy’s Adventure Tale, do A-ha, é uma daquelas músicas que ouço há anos e anos, 
sempre com a sensação estranha e familiar, de que foi escrita pra mim.
A sonoridade, a melodia, o tom da voz e a forma como a música caminha me fazem parar. Ouvir com calma. 
Sem distrações. Como se ela pedisse silêncio e atenção, não aplauso.

Por incrível que pareça, nunca fui atrás de entender exatamente do que se tratava. Talvez por medo de quebrar o encanto.
Mas hoje descobri: não era só nostalgia , era espelho.
A música fala sobre crescer e perceber que a tal “aventura” ficou no passado. Que amadurecer nem sempre parece vitória. Que a infância era um livro cheio de possibilidades, e a vida adulta… um parágrafo mais contido, menos mágico.

Talvez a maior aventura não tenha sido viver tudo aquilo, mas aprender a conviver com a saudade de quem a gente foi.
E seguir em frente mesmo assim. Um pouco mais cético. Um pouco mais cansado. Mas ainda tentando não perder totalmente o encanto.

Algumas músicas não contam histórias.
Elas apenas lembram que certas histórias já terminaram 
e mesmo assim continuam morando na gente.


Cresci dentro de uma casa que cantava

Se tem uma coisa pela qual vou agradecer à minha mãe pra sempre, é por ter feito da nossa casa um lugar musical.
Desde que me entendo por gente, lá em casa sempre teve música  
no rádio, na fita K7 ou no bom e velho vinil.
A música sempre esteve comigo, e tenho certeza de que vai me acompanhar até o fim.
Acho até curioso quando alguém me pergunta como eu consigo ouvir música o tempo todo.
Respondo sem pensar: música é tudo. É vida, é memória, é sonho, é projeto.

Se um dia eu tivesse que escolher entre perder a visão ou a audição, escolheria perder a visão sem pestanejar.
Viver sem ver eu até dava um jeito… sem ouvir música, não. Aí não faz sentido.
A música faz parte de quem eu sou e de quem ainda vou ser.
Nos meus melhores e piores momentos, ela sempre esteve ali.
Serve pra lembrar, pra acalmar, pra segurar a barra, pra celebrar.

Ouça música. Deixe ela entrar no peito, ocupar um cantinho do seu “eu”.
Às vezes, ela diz aquilo que nem psicólogo consegue traduzir.
Música é vida, é sentimento, é companhia — e nunca te abandona, mesmo quando o resto do mundo parece que abandona.

Considerações nada festivas sobre viradas de ano, falsas promessas e leões persistentes

Continuo não gostando dessa época natalina e de viradas de ano.
Essa ideia de que um novo ano começa trazendo boas novas, novas etapas, novas versões de nós mesmos, não faz o menor sentido pra mim.
É um dia como qualquer outro.
Nada de especial. O despertador toca do mesmo jeito, lembrando que não existe festa quando se tem que correr atrás de tudo.

Os tais leões ainda andam à solta, esperando a luta. Dia após dia.
De que adianta matar um leão por dia se as coisas não andam?
No fim, isso só serve pra levar o pobre coitado à extinção.
Se apegar à esperança de que coisas boas virão é, muitas vezes, perda de tempo.
Como Red disse a Dufresne: “a esperança pode deixar um homem louco”.
Não digo que ninguém deva abandonar a esperança, só não se agarrar a ela como se fosse salvação.
Enquanto as pessoas se divertem nessas datas, sentindo uma felicidade provisória e passageira, coisas ruins continuam acontecendo. Basta ligar a TV ou ler os jornais.
Mas é mais fácil se desligar entre bebida e comida. O ano novo será diferente. Tudo vai melhorar. Talvez.

E eu, sozinho no apartamento, ao som de Clear Day, da Hope Sandoval, tento descansar um pouco. Porque na segunda-feira tudo começa de novo.
E o ano novo é só mais um dia pra mim.

Sem novidades.

Sem falsas esperanças.

Apenas mais um leão na porta, 
esperando pra sair no braço comigo.

* Red e Dufresne: Personagens do filme Um sonho de liberdade.


As coisas simples que a gente deixa pra trás sem notar

 Uma amiga veio nos visitar, e eu resolvi fazer um bolo pra gente lanchar.

Ela perguntou:

— Bolo de quê?

Respondi que era de baunilha com queijo.

Ela então comentou, quase distraída, sobre bolo de café… e foi como se alguém tivesse acendido uma luz aqui dentro. Desde que me mudei pra Uberlândia, lá em 1999, nunca mais fiz um bolo de café.
E eu gostava tanto.

Pegava o café morno que sobrava na garrafa, aquele que já não servia pra encher xícara nenhuma, e transformava num bolo cheiroso, simples, honesto. Era quase um ritual doméstico: reaproveitar o que restava e devolver à casa um cheiro de aconchego.

Enquanto o bolo assava, fiquei pensando nas pequenas coisas que eu gostava de fazer  e que, sem perceber, deixei pelo caminho. Hobbies silenciosos. Pequenos rituais. Prazeres que não pediam aplauso, só presença.

É curioso como a gente só se lembra dessas partes da gente quando alguém toca no assunto e desperta uma memória que estava quieta, esperando.

Quantas coisas a gente abandona sem notar?

Quantas versões nossas ficam pelo caminho?

Será que a vida é isso — um acúmulo de pressas que vai empurrando os detalhes pra escanteio?

Ou será que a gente simplesmente se perde nas aleatoriedades do dia a dia 

e esquece que a felicidade, às vezes, tem cheiro de café e gosto de bolo recém-saído do forno.

Drive: minha número 1 desde o dia em que o rádio velho falou comigo

Drive, da banda The Cars, é daquelas músicas que, mesmo sem falar de algo que vivi ou que eu sequer tenha chegado perto de viver , acabou entrando na trilha sonora da minha vida. E não entrou de qualquer jeito, não: virou a número 1.

É uma canção belíssima, e a voz do Benjamin Orr parece encontrar um cantinho no meu peito que nenhuma outra alcança.

Quarenta anos se passaram desde que ouvi Drive pela primeira vez naquele rádio velho, e, toda vez que ela toca, volto a ser o menino que parou tudo pra escutar aqueles acordes.

Às vezes me pego imaginando o que o próprio Benjamin Orr pensaria se soubesse que essa música me acompanha por tantos anos, firme e quietinha, feito amigo antigo.

Pode não ser a sua história. Pode não dizer nada pra você. Mas essa é uma daquelas músicas que eu recomendo sempre 

e recomendo de coração.

28/10/2025

A música do avião ainda toca, e eu continuo parando pra ouvir

 



Na minha infância, o rádio ligado era presença constante em casa.
De vez em quando, a gente precisa, mesmo já crescido , reencontrar aquela criança que ficou lá atrás, e que a vida adulta, cheia de preocupações, acaba deixando esquecida num canto.
Eram coisas simples, mas que marcaram fundo a nossa infância.
“Every Time You Go” tocou há pouco na minha playlist e, como sempre, parei pra ouvir o avião.
Porque uma pessoa sem lembranças… não é ninguém.
A gente ouvia música o dia inteiro. Mamãe sempre teve esse costume, e eu carrego isso comigo até hoje. Sem música, eu não sou ninguém.
No meio das brincadeiras, eu sempre prestava atenção quando tocava “a música do avião”.
O ano era 1985, e ela fazia um sucesso danado, tocava várias vezes por dia. E, toda vez, eu parava pra ouvir o avião.
Lembranças, por mais simples que sejam, ainda são lembranças.
E faço questão de carregá-las comigo pelo resto da vida.

Quando a música girava devagar e a vida não precisava de tanta pressa

 


De vez em quando me bate uma saudade teimosa do começo dos anos 1990.
Eu me vejo naquele quarto, meu canto de sossego, com meus poucos discos de vinil e fitas K7  e não essa bagunça digital de hoje que ninguém dá valor.
Tinha dias em que eu só deitava e deixava a música rodar, sem notificações apitando.
Em outras noites, uma cerveja gelada e um Hollywood pra acompanhar o pensamento. 
Coisa simples, direta, sem frescura.
Era outro tempo.
As preocupações tinham mais sentido, e os sentimentos não vinham exagerados como hoje. A vida andava no ritmo certo, sem essa pressa estúpida.
No meio dessa modernidade cheia de música descartável, Robbie Williams ainda consegue me puxar de volta praqueles dias.
O cara tem estilo. Não fica tentando impressionar com firula.
Simples, bom, e com aquele toque que faz a gente lembrar de sensações guardadas lá no fundo.
Suas canções têm esse poder discreto: acender memórias que o tempo tentou apagar, sem drama.
É alguém que recomendo ouvir.
No mínimo, ajuda a limpar os ouvidos da porcaria que anda por aí.


Da sorveteria apertada ao velho rádio dos anos 70: pequenas lembranças que o tempo não conseguiu derreter

 Com 10 para 11 anos, arrumei meu primeiro emprego. Era numa sorveteria onde eu mal tinha altura para enxergar direito por cima do balcão. Ali conheci muita gente boa, e quase sempre aparecia alguém para jogar conversa fora enquanto esperava o pedido.

Uma das melhores coisas daquele lugar era um rádio dos anos 70, sempre ligado, deixando o ambiente mais vivo. Foi nele que ouvi Every Beat of My Heart pela primeira vez,  e, de lá pra cá, a música nunca me deixou.

Quando o patrão não estava, eu dava um jeitinho de pegar o telefone e ligar na rádio para pedir a canção. Era minha pequena missão secreta.

E aí… quase quarenta anos se passaram desde aqueles dias.

Ainda bem que certas lembranças ficam.

E é sempre bom revisitá-las.

Sobre a amiga que partiu e volta toda vez que Annie Lennox começa a cantar

 


Existem pessoas que, quando passam pelas nossas vidas, deixam marcas difíceis de esquecer.
São amizades que nos brindam com risadas sinceras, bons conselhos e companhias que fazem falta até no silêncio.
Amigos assim estão se tornando raridade.
E quando vão embora, o que sobra é a saudade  e a lembrança dos momentos que tivemos a sorte de viver.

Hoje, senti falta de uma grande amiga que já partiu.
Sempre que ouço Annie Lennox, é impossível não lembrar o quanto essa pessoa foi especial e continuará sendo para mim.
O que realmente pesa é saber que nunca tive a chance de dar um abraço nela e dizer, sem rodeios, o quanto eu gostava da sua amizade.
Algumas pessoas se vão…
Mas ficam para sempre.


Com a bolsa velha e Bee Gees tocando, parti sem saber se devia ficar

 


No início de 1999, arrumei minhas coisas e saí de casa em busca de algo que nem eu sabia direito.
Com uma bolsa velha carregando grande parte da minha vida, fui até o quintal e chamei minha mãe para me despedir.
Ela devia querer me pedir para ficar, mas ficou firme.
Desejou que eu ficasse bem e me deu suas bênçãos silenciosas.
Sei que sentiu tristeza ao me ver partir, mas entendeu minha ansiedade de conhecer o mundo e viver minha própria vida.
Lembro como se fosse ontem: eram 11:30 da manhã de uma terça-feira. Fechei o portão e segui em direção à rodoviária, deixando minha mãe sozinha em casa.

Não sei o que teria acontecido se eu tivesse ficado, se a vida tivesse tomado outro rumo.
A única coisa que permanece viva na memória é vê-la me olhando ir embora, enquanto no rádio tocava “For Whom the Bell Tolls”, do Bee Gees.
Se eu devia ter ficado ou partido, jamais saberei.
Depois de tantos anos, a resposta já não faria diferença.
Estou aqui.
Mamãe se foi.
E, com isso, a resposta também.

1987, Joe Cocker no rádio e lembranças no quartinho

 


Em 1987, nos mudamos de cidade e, por motivos que não vêm ao caso, ficamos hospedados na casa de um tio, numa cidade pequena.
A família se acomodou em dois quartos: um dentro da casa e outro nos fundos. Eu fiquei nos fundos, junto com minha mãe e dois irmãos.

Ainda era garoto, e tudo parecia novo e estranho ao mesmo tempo.
Ficamos pouco mais de dois meses ali, mas lembro claramente do quartinho apertado, e do pequeno rádio-relógio que tocava Joe Cocker repetidamente.

Às vezes a música vinha normal, outras vezes, na madrugada, ela surgia em modo “som sobre som”, ecoando pelo quarto e me embalando.

Foi um período complicado, sem dúvida, mas algumas coisas boas ficaram:
pequenas lembranças que hoje se transformaram em belas recordações.

Crônica criada em: 24/10/2025

27/02/2020

Se não tem grana pra viajar, pegue um livro e inicie a jornada



às vezes, eu paro em frente a minha estante 
e fico observando meus livros.
não são muitos
mas cada um tem sua história (lógico)
e me disseram alguma coisa
coisas boas ou ruins
não importa.

é engraçado como eles fazem a gente viajar
sem ao menos sair do lugar.
me diziam isso, mas eu achava exagero.

hoje, já visitei a Normandia, 
ví de perto os campos floridos da Áustria durante a guerra
fui à Los Angeles, Derry, Maine
já bebi cerveja com o velho Buk em San Pedro
já andei em vagões de carga com Kerouack pela Califórnia
e já tomei café com Patti Smith.

é estranho, porque sempre me considerei um matuto.
ignorante não, mas com certa cultura limitada.
hoje não, hoje sou diferente.
decidi caminhar mais longe
longe daquilo que imaginava ser incapaz
Sócrates, Platão e Arthur já deram o ar da graça
e Cervantes e Vitor Hugo estão alí
me olhando de perto
se peguntando quando farão parte da brincadeira.
logo, logo, digo à eles.

agora já não me acho tão [In]culto
já tenho algum conhecimento que
os vivos e os mortos já me passaram.
não me considero um intelectual
não sou ainda um letrado,
 literato
 ou coisa parecida

não sou um intelectual
ainda não.
mas pelo menos, 
já uso óculos





08/04/2019

Mary Jane se foi e o que restou foi a parede branca com cheiro de tinta fresca

 


Mary Jane andava de um lado para outro

exibindo suas longas pernas e sua bunda grande.

parecia que estava na passarela do SP Fashion Week

Mary Jane era esperta sabia que chamava a atenção.

entre uma caçada e outra, 

andava pela parede tranquilamente

ou tecia suas teias enquanto lia A infinita Fiandeira

de Mia Couto.

 -Tem que tirar esse bicho daí. Diziam

 -Deixem a Mary Jane quieta, ela não faz mal a ninguém. Respondia

ela me reconhecia e diariamente ao abrir a porta,

vinha andando preguiçosamente e depois de ouvir o meu bom dia, voltava para seu canto.

hoje não a ví.

notei que a parede onde ela ficava ganhou pintura nova no fim de semana.

e agora

Mary Jane se foi.

e o que restou foi

apenas a parede vazia

com cheiro de tinta 

fresca.