Minha mente às vezes funciona como uma máquina defeituosa de pensamentos. Conflitos comigo mesmo, problemas banais do dia a dia, ideias que eu queria deixar registradas — quem sabe pra alguém, um dia, tropeçar nesses escritos e se interessar.
Mas a tela do editor continua ali, aberta, me encarando como quem pergunta: e aí, vai escrever essa merda ou não?
Na janela, minha gata está estirada, de barriga cheia, observando as senhorinhas conversando lá embaixo. As resoluções delas parecem as mesmas de sempre: cuidar da vida alheia enquanto as próprias seguem vazias.
As luzes de Natal insistem em refletir no vidro. Por que não desligam essa merda? Natal já passou e ninguém liga pra elas. Muito menos eu.
Sinto que a noite vai ser longa. Ainda tem os malditos fogos e essa insônia que resolveu me acompanhar nos últimos dias.
Gosto de ficar sozinho, nunca tive problema com isso. Mas em certas épocas do ano, preferia não estar.
A mente não para. Os pensamentos aparecem sem pedir licença e ficam cutucando. Não estou deprimido — só irritado por não conseguir colocar essa merda no papel.
Às vezes me pergunto como Bukowski conseguia. Com aquela vida toda torta e ainda assim botava tudo pra fora, sem pedir desculpa.
A tela segue em branco enquanto As The World Falls Down, do David Bowie, toca no player.
Ele canta algo sobre amar alguém mesmo sabendo que tudo pode ir pro ralo — e, ainda assim, insistir.
Queria ter conhecido Bowie. O cara era foda. Um dia ainda escrevo como ele. Mesmo que ninguém leia.
A tela continua me olhando.
Minha gata cansou das velhas e foi dormir na cama.
As luzes não vão sumir da janela. Os fogos já começaram.
Vou pegar outra cerveja e deixar Heroes tocar.
É uma música foda. E, sinceramente, todo mundo deveria ouvir.
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