Nada mal, eu também estava mal-humorado. E dois mal-humorados não costumam se dar muito bem.
Pela janela, as ruas escorriam: carros apressados, buzinas, gente afundada nos próprios celulares.
Eu pensava no que tinha feito, no que poderia ter feito… e no peso de um dia longo, sem nada que prestasse de verdade.
Então veio o toque no ombro.
Leve. Perfumado.
Aquele cheiro suave de melancia que, por um tempo, fez parte dos meus dias.
Virei o rosto e sorri.
Era ela.
A menina miúda. A cabritinha que tanto me fez feliz.
Estava ali, ao meu lado, com um abraço cheio de calor e verdade.
É fácil reconhecer um abraço verdadeiro.
E aquele era.
A saudade vinha junto, no cheiro, no aperto, no silêncio entre uma palavra e outra.
Eu não esperava por aquilo. Por aquele encontro.
Ficamos ali, de mãos dadas, conversando baixo, trocando abraços como quem tenta segurar o tempo.
Por alguns minutos, revi muita coisa boa.
Senti falta.
Das conversas.
Do pão torrado levado até o sofá.
Das risadas até das minhas piadas sem graça.
E até de quando eu reclamava de qualquer bobagem da internet só pra ouvir ela rir.
A parada chegou.
Ela precisava descer.
Antes, me deu mais um abraço longo, apertado, desses que dizem mais do que qualquer palavra.
Disse que me amava.
Eu disse que a amava.
Fiquei olhando enquanto ela caminhava pela rua, seguindo a própria vida.
E eu aqui, esperando…
a chance de encontrá-la de novo,
em algum outro dia.
