12/04/2026

Nada em um domingo qualquer

Relendo meus textos, percebi que fico muito tempo sem escrever coisa alguma. 
Tem épocas que consigo escrever, ou melhor, as coisas simplesmente saem da cabeça
e vêm pra tela do computador.
Às vezes, penso que é por causa da minha vida:
não tem absolutamente nada de interessante.
Nada que faça alguém querer ler.
Ou talvez
eu só seja rabugento demais
e ache tudo uma merda.

A tela insiste em ficar em branco.
Penso um monte de coisas
e nada acontece.
Ela fica me olhando como se dissesse:
“Você é um idiota que não sabe o que escrever.”
Só a minha sogra me chama de idiota.
E eu respeito.
Aceito.
Agora, uma tela de computador?
Aí já é o fim da picada, né?

A lâmpada do meu quarto estava ruim.
Troquei por outra.
Ficou a mesma porcaria.
Provavelmente, nem pra comprar uma lâmpada decente eu sirvo.
Lembrei da minha sogra.
Da frase dela:
“Como alguém pode ser feliz
se até a lâmpada do quarto não presta?”

A cerveja que abri meia hora atrás estava na estante, me olhando.
Já não estava mais gelada.
Bebi assim mesmo.
Não vou jogar fora três reais e noventa e oito centavos.

Dolores subiu na cama.
Levantou a pata traseira, como se estivesse fazendo yoga,
e começou a lamber a bunda.
Acendi um cigarro e fiquei assistindo.
Três ou quatro lambidas.
Uma pausa olhando pro nada.
Depois voltava.
Trabalho sério.
Com a bunda devidamente limpa,
deitou
e dormiu.
Amanhã, às cinco da manhã,
ela me acorda pra comer.

Vejo uma notificação no telefone.
Duas horas atrás.
A Defesa Civil alertava sobre chuva forte.
A chuva não veio.
Pelo visto, até ela anda
sem saco pra fazer alguma coisa.

E, no fim das contas,
olha só,
a tela não ficou
em branco

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