08/03/2026

No caminho do supermercado, um pequeno momento de glória

Entre minha casa e o supermercado, existe um grande terreno vazio.
Um terreno tomado por mato alto, cercado por arame.
Nas laterais cresce uma espécie de planta que parece pendões.
São altos e, nas pontas, carregam algo parecido com minúsculas flores.
Não sei o nome daquilo e, para falar a verdade, nunca me preocupei em pesquisar.
A única coisa que sei é que, todas as vezes que passo por ali, estendo o braço e deixo os pendões tocarem minhas mãos,assim como Maximus fazia em O Gladiador.
Parece banal.
E é banal.
Mas, naqueles poucos segundos, me sinto como Maximus chegando em casa,
depois de um longo dia,
deixando a natureza tocar suavemente suas mãos.
A diferença é que Maximus voltava de uma grande batalha.
E eu…
apenas do supermercado, com meia dúzia de cervejas numa sacola.


O urubú voa, a gata dorme, eu continuo aqui

A tela do editor insiste em ficar em branco.

Pensei em escrever alguma coisa, mas nada sai.

Às vezes, ou talvez sempre, é difícil colocar no papel aquilo que passa pela cabeça.
Pela janela, observo um urubú voando em círculos num céu levemente nublado.
Fico imaginando o que ele pensa. Será que pensa alguma coisa?
Ou também fica entediado, como eu neste final de domingo?

Dolores acordou.
Se esfregou na minha perna e foi direto para a caixa de areia fazer o que precisava.
Depois dos afazeres fisiológicos, voltou, subiu na poltrona e dormiu.
Não sei se a vida de gato é simples demais ou apenas monótona.
Talvez nunca saibamos.
Gatos são criaturas cheias de enigmas.

Queria ter a facilidade que muita gente tem de escrever exatamente o que sente.
Mas cheguei à conclusão de que, na minha cabeça, as coisas são mais claras.
Quando tento passá-las para o papel, elas se misturam.

Ouço o carro da pamonha passando na avenida ao lado.
Como sempre, ele já vendeu quase tudo.
Só faltam 400 pamonhas.
É uma boa estratégia de vendas: sempre dizer que está acabando.

Olho novamente pela janela e vejo que o urubú desistiu de voar em círculos.
Na poltrona, Dolores dorme de barriga para cima.
No player, The Cure toca Pictures of You.
E eu continuo aqui, sentado na cadeira, tentando escrever alguma coisa.

No fim das contas, talvez escrever seja exatamente isso:
ficar olhando a vida passar pela janela
até que alguma frase resolva pousar.