A tela do editor insiste em ficar em branco.
Pensei em escrever alguma coisa, mas nada sai.
Às vezes, ou talvez sempre, é difícil colocar no papel aquilo que passa pela cabeça.
Pela janela, observo um urubú voando em círculos num céu levemente nublado.
Fico imaginando o que ele pensa. Será que pensa alguma coisa?
Ou também fica entediado, como eu neste final de domingo?
Dolores acordou.
Se esfregou na minha perna e foi direto para a caixa de areia fazer o que precisava.
Depois dos afazeres fisiológicos, voltou, subiu na poltrona e dormiu.
Não sei se a vida de gato é simples demais ou apenas monótona.
Talvez nunca saibamos.
Gatos são criaturas cheias de enigmas.
Queria ter a facilidade que muita gente tem de escrever exatamente o que sente.
Mas cheguei à conclusão de que, na minha cabeça, as coisas são mais claras.
Quando tento passá-las para o papel, elas se misturam.
Ouço o carro da pamonha passando na avenida ao lado.
Como sempre, ele já vendeu quase tudo.
Só faltam 400 pamonhas.
É uma boa estratégia de vendas: sempre dizer que está acabando.
É uma boa estratégia de vendas: sempre dizer que está acabando.
Olho novamente pela janela e vejo que o urubú desistiu de voar em círculos.
Na poltrona, Dolores dorme de barriga para cima.
No player, The Cure toca Pictures of You.
E eu continuo aqui, sentado na cadeira, tentando escrever alguma coisa.
No fim das contas, talvez escrever seja exatamente isso:
ficar olhando a vida passar pela janela
até que alguma frase resolva pousar.

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