Quando fechar portas deixou de ser perda e passou a ser coragem

 Vejo uma menina que, nos últimos tempos, travou uma luta silenciosa e desgastante.

Uma batalha que consumia forças, espalhava dor e deixava a tristeza fazer morada.
O brilho foi se apagando devagar, e o sorriso fácil — aquele que vinha com gargalhada — passou a aparecer cada vez menos.
A vida nunca foi exatamente gentil com ela. Mesmo quando tentava seguir em frente, algo sempre insistia em atrapalhar o caminho.

Mas hoje eu vejo algo diferente.
Ao tomar uma decisão importante, ela muda o rumo da própria história.
Novos desafios virão, é verdade — mas ela saberá enfrentá-los um a um.
Por competência, profissionalismo e dedicação. Coisas que sempre estiveram ali, mesmo quando ela duvidava.

Ao olhar para trás, ela deixa tudo o que lhe fez mal, como quem avisa em silêncio:
fiquem aí — agora o meu caminho é outro.
A vida é assim mesmo: cheia de pedras, buracos e desvios inesperados.
Todos os dias aprendemos se é melhor pular, contornar ou chutar cada obstáculo.

O sucesso já está no caminho dela.
Basta continuar sendo quem sempre foi — e tudo começa a mudar.
Às vezes, é preciso fechar algumas portas para que haja espaço para novas se abrirem.

2026 será o seu ano.
E dessa vez, nada vai te abalar.


*Crônica feita para minha filha


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Enquanto o mundo explode em fogos lá fora, eu fico aqui dentro, ouvindo Ocean Rain e fingindo que o tempo não está recomeçando

 Lá fora, os fogos estouram por todos os lados.

Fico aqui, encostado na janela, observando os clarões enquanto Echo & The Bunnymen gira no player.
Ocean Rain é um disco grande — desses que combinam com silêncio, pensamento solto e uma certa melancolia bem aceita.
Descobri uma versão alternativa de The Killing Moon que eu não conhecia.
Funciona perfeitamente como trilha sonora pra beber uma cerveja sem pressa, deixando o tempo passar.

O ano novo começou.
Nada de épico: é só mais um dia. Um novo dia.

Mas, gostando ou não, tudo recomeça.
Absolutamente tudo.


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Enquanto eles cantam We Are the Champions, eu bebo outra cerveja e espero que as luzes de Natal queimem

 Os vizinhos estão com visitas. A noite deles parece animada demais.

Uma mulher ri igual à hiena do Rei Leão, enquanto um sujeito berra We Are the Champions no karaokê.
Freddie Mercury deve estar se revirando no túmulo, de puro pavor.

Não condeno os vizinhos. Eles têm todo o direito de fazer a virada do jeito que quiserem.
Eu é que sou ranzinza mesmo.

The Killing Moon, do Echo & The Bunnymen, toca no meu computador e eu lembro do Buenas.
Li o último livro dele, Tracks, e já saí com uma lista nova de artistas pra conhecer.
Essa é a vantagem de ler alguém que gosta de música e sabe escrever.
Tenho os três livros devidamente autografados. E isso, por algum motivo, me deixa genuinamente feliz.

Um dia, quem sabe, publico minhas coisas também.
Mas é só um quem sabe.
Um desses que a gente guarda sem muita fé, pra não estragar.

A visita da vizinha continua rindo feito hiena.

E eu abro outra cerveja.
Fico deitado, ouvindo música, olhando pela janela, torcendo pra que as luzes de Natal entrem em curto-circuito e queimem de vez.

Happy New Year.


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O Mundo estoura em fogos e eu continuo tentando escrever alguma Coisa

 Minha mente às vezes funciona como uma máquina defeituosa de pensamentos. Conflitos comigo mesmo, problemas banais do dia a dia, ideias que eu queria deixar registradas — quem sabe pra alguém, um dia, tropeçar nesses escritos e se interessar.

Mas a tela do editor continua ali, aberta, me encarando como quem pergunta: e aí, vai escrever essa merda ou não?

Na janela, minha gata está estirada, de barriga cheia, observando as senhorinhas conversando lá embaixo. As resoluções delas parecem as mesmas de sempre: cuidar da vida alheia enquanto as próprias seguem vazias.

As luzes de Natal insistem em refletir no vidro. Por que não desligam essa merda? Natal já passou e ninguém liga pra elas. Muito menos eu.
Sinto que a noite vai ser longa. Ainda tem os malditos fogos e essa insônia que resolveu me acompanhar nos últimos dias.

Gosto de ficar sozinho, nunca tive problema com isso. Mas em certas épocas do ano, preferia não estar.
A mente não para. Os pensamentos aparecem sem pedir licença e ficam cutucando. Não estou deprimido — só irritado por não conseguir colocar essa merda no papel.

Às vezes me pergunto como Bukowski conseguia. Com aquela vida toda torta e ainda assim botava tudo pra fora, sem pedir desculpa.

A tela segue em branco enquanto As The World Falls Down, do David Bowie, toca no player.
Ele canta algo sobre amar alguém mesmo sabendo que tudo pode ir pro ralo — e, ainda assim, insistir.

Queria ter conhecido Bowie. O cara era foda. Um dia ainda escrevo como ele. Mesmo que ninguém leia.

A tela continua me olhando.
Minha gata cansou das velhas e foi dormir na cama.
As luzes não vão sumir da janela. Os fogos já começaram.

Vou pegar outra cerveja e deixar Heroes tocar.
É uma música foda. E, sinceramente, todo mundo deveria ouvir.

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Nem toda aventura sobrevive ao tempo, algumas viram música

 Living a Boy’s Adventure Tale, do a-ha, é uma daquelas músicas que ouço há anos e anos, 

sempre com a sensação estranha e familiar, de que foi escrita pra mim.

A sonoridade, a melodia, o tom da voz e a forma como a música caminha me fazem parar. Ouvir com calma. 

Sem distrações. Como se ela pedisse silêncio e atenção, não aplauso.

Por incrível que pareça, nunca fui atrás de entender exatamente do que se tratava. Talvez por medo de quebrar o encanto.
Mas hoje descobri: não era só nostalgia — era espelho.

A música fala sobre crescer e perceber que a tal “aventura” ficou no passado. Que amadurecer nem sempre parece vitória. Que a infância era um livro cheio de possibilidades, e a vida adulta… um parágrafo mais contido, menos mágico.

Talvez a maior aventura não tenha sido viver tudo aquilo, mas aprender a conviver com a saudade de quem a gente foi.
E seguir em frente mesmo assim. Um pouco mais cético. Um pouco mais cansado. Mas ainda tentando não perder totalmente o encanto.

Algumas músicas não contam histórias.
Elas apenas lembram que certas histórias já terminaram —
e mesmo assim continuam morando na gente.


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Considerações nada festivas sobre viradas de ano, falsas promessas e leões persistentes

 Continuo não gostando dessa época natalina e de viradas de ano.

Essa ideia de que um novo ano começa trazendo boas novas, novas etapas, novas versões de nós mesmos, não faz o menor sentido pra mim.
É um dia como qualquer outro.
Nada de especial. O despertador toca do mesmo jeito, lembrando que não existe festa quando se tem que correr atrás de tudo.

Os tais leões ainda andam à solta, esperando a luta. Dia após dia.

De que adianta matar um leão por dia se as coisas não andam?
No fim, isso só serve pra levar o pobre coitado à extinção.

Se apegar à esperança de que coisas boas virão é, muitas vezes, perda de tempo.
Como Red disse a Dufresne: “a esperança pode deixar um homem louco”.
Não digo que ninguém deva abandonar a esperança — só não se agarrar a ela como se fosse salvação.

Enquanto as pessoas se divertem nessas datas, sentindo uma felicidade provisória e passageira, coisas ruins continuam acontecendo. Basta ligar a TV ou ler os jornais.
Mas é mais fácil se desligar entre bebida e comida. O ano novo será diferente. Tudo vai melhorar. Talvez.

E eu, sozinho no apartamento, ao som de Clear Day, da Hope Sandoval, tento descansar um pouco. Porque na segunda-feira tudo começa de novo.
E o ano novo é só mais um dia pra mim.

Sem novidades.
Sem falsas esperanças.
Apenas mais um leão na porta, esperando pra sair no braço comigo.

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Cresci dentro de uma casa que cantava

 Se tem uma coisa pela qual vou agradecer à minha mãe pra sempre, é por ter feito da nossa casa um lugar musical.

Desde que me entendo por gente, lá em casa sempre teve música — no rádio, na fita K7 ou no bom e velho vinil.
A música sempre esteve comigo, e tenho certeza de que vai me acompanhar até o fim.

Acho até curioso quando alguém me pergunta como eu consigo ouvir música o tempo todo.
Respondo sem pensar: música é tudo. É vida, é memória, é sonho, é projeto.
Se um dia eu tivesse que escolher entre perder a visão ou a audição, escolheria perder a visão sem pestanejar.
Viver sem ver eu até dava um jeito… sem ouvir música, não. Aí não faz sentido.
A música faz parte de quem eu sou e de quem ainda vou ser.

Nos meus melhores e piores momentos, ela sempre esteve ali.
Serve pra lembrar, pra acalmar, pra segurar a barra, pra celebrar.
Ouça música. Deixe ela entrar no peito, ocupar um cantinho do seu “eu”.
Às vezes, ela diz aquilo que nem psicólogo consegue traduzir.
Música é vida, é sentimento, é companhia — e nunca te abandona, mesmo quando o resto do mundo parece que abandona.
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As coisas simples que a gente deixa pra trás sem notar

 Uma amiga veio nos visitar e resolvi fazer um bolo pra gente lanchar.

Ela perguntou: “bolo de quê?”.
Respondi que era de baunilha com queijo.
Aí ela comentou sobre bolo de café… e, de repente, me caiu a ficha: desde que me mudei pra Uberlândia, lá em 1999, nunca mais fiz um bolo de café.
E olha que era algo que eu gostava demais. Pegava aquele café morno que sobrava na garrafa e transformava num bolo cheiroso, simples e bom.

Enquanto o bolo assava, fiquei ali pensando nas coisas pequenas que eu curtia fazer — e que, sem nem perceber, deixei de lado.
É curioso como a gente só lembra dessas coisas quando alguém puxa o assunto e reacende uma memória que tava quietinha.

Quantas coisas a gente abandona sem notar?
Quantas? Quantas mesmo?

Será que a vida é isso?
Ou será que a gente se perde nas aleatoriedades do dia a dia e esquece dos pequenos prazeres… como um simples bolo de café?

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Drive: minha número 1 desde o dia em que o rádio velho falou comigo

 Drive, da banda The Cars, é daquelas músicas que, mesmo sem falar de algo que vivi — ou que eu sequer tenha chegado perto de viver — acabou entrando na trilha sonora da minha vida. E não entrou de qualquer jeito, não: virou a número 1.


É uma canção belíssima, e a voz do Benjamin Orr parece encontrar um cantinho no meu peito que nenhuma outra alcança.
Quarenta anos se passaram desde que ouvi Drive pela primeira vez naquele rádio velho, e, toda vez que ela toca, volto a ser o menino que parou tudo pra escutar aqueles acordes.

Às vezes me pego imaginando o que o próprio Benjamin Orr pensaria se soubesse que essa música me acompanha por tantos anos, firme e quietinha, feito amigo antigo.

Pode não ser a sua história. Pode não dizer nada pra você.
Mas essa é uma daquelas músicas que eu recomendo sempre — e recomendo de coração.
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